Quem pensa que é preciso viajar para regiões montanhosas para praticar rapel pode se surpreender. Em Belém, onde não existem paredões naturais, o esporte de aventura encontrou uma forma de crescer utilizando pontes, prédios e outras estruturas urbanas. O resultado é um número cada vez maior de pessoas em busca de adrenalina, superação e uma pausa na rotina.
Instrutor desde 2005, Michael Pereira, conhecido como “Michael Rapel”, acompanhou esse crescimento de perto. Entre 2011 e 2018, ele comandou atividades ao ar livre praticamente todos os fins de semana na capital paraense e afirma que o interesse pela modalidade continua aumentando. “A atividade vem ganhando notoriedade como uma válvula de escape do dia a dia corrido. O baixo custo e a segurança transmitida pelos instrutores fazem muita gente experimentar o rapel pela primeira vez”, garante.
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ESPORTE CRESCE COM INDICAÇÃO DE QUEM JÁ VIVEU A EXPERIÊNCIA
Ao contrário de modalidades impulsionadas por grandes campanhas de divulgação, o rapel cresce principalmente pela experiência dos próprios praticantes.
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Segundo Michael, quem participa costuma voltar acompanhado. “O crescimento acontece muito pela propaganda de boca a boca. As pessoas fazem a atividade, gostam da experiência e depois trazem familiares e amigos. Hoje também existe o incentivo das redes sociais, porque muita gente quer registrar aquele momento de superação”, explica Michael.
Para ele, a combinação entre aventura, belas imagens e acessibilidade explica o aumento da procura nos últimos anos.
JOVENS SÃO MAIORIA, MAS PRÁTICA CONQUISTA TODAS AS IDADES
Embora os jovens entre 18 e 39 anos representem a maior parte dos participantes, o perfil dos praticantes vem se diversificando. Pessoas que já mantêm hábitos esportivos, como corrida, caminhada e ciclismo, também passaram a procurar o rapel como uma nova experiência.
“O público com mais idade também demonstra bastante interesse. Muitos já praticam outras atividades físicas e acabam encontrando no rapel um desafio diferente”, relata.
SEM MONTANHAS, BELÉM ENCONTROU OUTRA SOLUÇÃO
Se em outras regiões do país o cenário ideal são cachoeiras e paredões de pedra, em Belém a criatividade virou aliada da aventura. A ausência de formações naturais faz com que praticamente todas as descidas sejam realizadas em estruturas construídas pelo homem.
“Nossa maior dificuldade é justamente não ter montanhas ou elevações naturais. Utilizamos prédios, pontes e outras estruturas. Para isso, sempre buscamos autorização dos proprietários ou dos órgãos responsáveis antes de qualquer atividade”, revela.
Segundo Michael, esse planejamento é indispensável para garantir que cada evento ocorra dentro das normas de segurança.
SEGURANÇA COMEÇA MUITO ANTES DA DESCIDA
Quem observa apenas o momento da descida talvez não imagine a quantidade de procedimentos realizados antes que o participante coloque os pés para fora da plataforma.
Michael explica que tudo começa pelo sistema de ancoragem, responsável por sustentar toda a operação. Além do ponto principal, existe sempre uma ancoragem secundária ou um sistema redundante capaz de assumir a carga caso ocorra qualquer falha.
Outro recurso indispensável é o chamado backup, realizado com um nó blocante conhecido como Prussik, além de protetores instalados nos pontos de atrito da corda para evitar desgaste. “A atividade é segura porque trabalhamos sempre com redundância. Nunca existe apenas um único sistema de segurança”, ressalta.
EQUIPAMENTOS CERTIFICADOS FAZEM PARTE DA ROTINA
Segundo o especialista, nenhum participante inicia uma descida sem utilizar os equipamentos obrigatórios. Capacete homologado, cadeirinha, mosquetão, freio oito e luvas fazem parte do conjunto básico utilizado na maioria das atividades.
“Quando temos descidas realizadas em cachoeiras, os praticantes ainda utilizam óculos de proteção para evitar o impacto constante da água sobre os olhos”, detalha Michael.
Equopamento básicos de segurança no rapel:
- Corda: normalmente semiestática, indicada para rapel por apresentar baixa elasticidade.
- Cadeira (baudrier ou arnês): equipamento utilizado na região da cintura e das pernas, responsável por sustentar o peso do praticante.
- Freio descensor: dispositivo que gera atrito e permite o controle da velocidade durante a descida. O freio oito é o modelo mais utilizado por iniciantes.
- Mosquetões: peças metálicas com sistema de trava (rosca ou automática), usadas para conectar a cadeirinha, o freio e os pontos de ancoragem.
- Capacete: item indispensável para proteção da cabeça contra possíveis impactos ou queda de objetos.
- Luvas: protegem as mãos do calor provocado pelo atrito da corda e ajudam a evitar ferimentos.
- Fitas tubulares e cordeletes: utilizados na montagem de pontos de ancoragem seguros em árvores, rochas ou estruturas artificiais.
- Óculos de proteção: utilizado principalmente em cachoeiras para proteger o praticante do excesso de água durante a descida.
CHECAGEM EM “QUATRO OLHOS” REDUZ RISCOS
Outro procedimento considerado indispensável é a chamada “checagem em quatro olhos”. Na prática, um instrutor monta todo o equipamento no participante, enquanto outro profissional realiza uma nova inspeção antes da conexão à corda.
Depois da clipagem, uma terceira conferência é feita antes da autorização para a descida. “A gente nunca faz essa checagem sozinho. Sempre existe uma segunda pessoa conferindo tudo. Mesmo quando parece estar perfeito, outra pessoa precisa confirmar”, explica.
O RISCO ESTÁ NA FALTA DE PREPARO, NÃO NO ESPORTE
Com mais de 20 anos de atuação, Michael Pereira afirma já ter conduzido mais de 10 mil pessoas em atividades de rapel sem registrar acidentes. Na avaliação dele, o problema não está na modalidade, mas na atuação de pessoas sem formação adequada.
“O rapel não é perigoso. O que oferece risco são equipamentos de baixa qualidade e pessoas que participam de uma ou duas atividades, compram alguns equipamentos e começam a se apresentar como instrutores”, enfatiza.
Segundo ele, quando ocorrem acidentes, muitas vezes profissionais experientes precisam interromper suas próprias atividades para prestar socorro a grupos conduzidos por pessoas sem qualificação.
NORMAS TÉCNICAS GARANTEM A PRÁTICA SEGURA
A atividade de rapel segue regras definidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT);A NBR 15501 estabelece os requisitos de segurança, operação e qualidade para o turismo de aventura, enquanto a NBR 15502 determina os procedimentos e responsabilidades dos condutores.
Para Michael Pereira, a combinação entre equipamentos certificados, protocolos rigorosos e instrutores capacitados explica por que o rapel continua atraindo novos adeptos em Belém.
“Quando tudo é feito da maneira correta, o participante leva para casa muito mais do que adrenalina. Ele descobre uma atividade segura, acessível e que costuma despertar vontade de voltar”, afirma.

