Durante décadas, o futebol vendeu a imagem do estádio como território da força, da virilidade e da provocação sem filtros. Em campo, gols muitas vezes foram acompanhados por gritos, xingamentos e gestos que ultrapassaram a celebração esportiva para entrar no terreno da afirmação masculina. Agora, em meio a discussões cada vez mais frequentes sobre comportamento e responsabilidade no esporte, antigas atitudes passaram a ser encaradas sob um olhar menos complacente e mais crítico.
Foi nesse cenário que as jornalistas Milly Lacombe e Alicia Klein protagonizaram um debate contundente no programa “Jogou Onde?”, no YouTube, ao analisarem o hábito recorrente de jogadores que utilizam gestos obscenos ligados à genitália como forma de demonstrar poder, provocação ou superioridade dentro de campo. A discussão surgiu após episódios recentes envolvendo atletas como Bobadilla, do São Paulo, e Allan e André, do Corinthians, além de áudios da arbitragem que reacenderam a polêmica sobre a masculidade tóxica no futebol.
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“SÍMBOLO DE POTÊNCIA” E FRAGILIDADE MASCULINA
Durante o debate, Alicia Klein ironizou o fato de jogadores milionários e idolatrados recorrerem a esse tipo de gesto como demonstração de força. Para a jornalista, existe uma contradição biológica evidente na escolha do órgão genital masculino como símbolo máximo de poder.
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Enquanto os jogadores utilizam o ato de “pegar no saco” ou apontar para a genitália para afirmar que “quem manda aqui sou eu” ou que são “potentes”, a realidade física é o oposto. Klein destaca que o órgão é, na verdade, um dos pontos mais vulneráveis do corpo masculino: “Se não fosse frágil, você não precisava ficar protegendo ele na hora que uma falta vai ser batida”, observou.
E SE AS MULHERES FIZESSEM IGUAL?
Alicia ainda propõe uma inversão de perspectiva com o futebol feminino. Ela observa que a anatomia feminina, capaz de dar à luz, possui uma potência real e concreta, mas que as mulheres não utilizam seus corpos dessa maneira vulgar em campo.
Além disso, para as jornalistas, o fato de homens ricos e famosos precisarem se provocar através desse tipo de gesto é, acima de tudo, “infantil” e “idiota”, especialmente considerando a presença de inúmeras câmeras e de um público infantil assistindo às partidas pela TV.
MORAL SELETIVA E CONTRADIÇÕES DO FUTEBOL
A discussão também avançou para o que Milly Lacombe chamou de “hipocrisia moralizante” presente no ambiente esportivo. A jornalista criticou comentaristas e torcedores que relativizam gestos obscenos feitos por jogadores, tratando-os como algo “natural” do futebol, mas demonstram indignação diante de patrocínios ligados ao mercado adulto, como o da Fatal Model.
Para Milly, essa moral seletiva revela como determinados comportamentos masculinos agressivos ainda são socialmente aceitos quando associados à ideia de autoridade ou domínio. Segundo ela, a simbologia do pênis como representação de força ajuda a sustentar estruturas de violência simbólica contra mulheres e tudo aquilo que não se enquadra nesse padrão de masculinidade.
A PRESENÇA FEMINININA QUE INCOMODA
Outro ponto central da conversa foi a transformação do debate esportivo com a entrada de mulheres em espaços tradicionalmente masculinos da cobertura futebolística.
Milly Lacombe argumentou que comportamentos antes naturalizados passaram a ser questionados justamente porque mulheres começaram a ocupar programas esportivos, redações e mesas de debate. “A gente só tá falando sobre isso porque mulheres entraram na indústria”, lembrou. Para ela, o desconforto causado por essas críticas revela uma resistência cultural à revisão de práticas consideradas normais durante décadas.
A jornalista afirmou que o incômodo gerado pelas mulheres no futebol ocorre porque elas tensionam estruturas históricas de violência verbal, emocional e simbólica presentes no ambiente esportivo.
MASCULINIDADE, VIOLÊNCIA E INCAPACIDADE EMOCIONAL
As jornalistas também analisaram como a construção tradicional da masculinidade no futebol estimula homens a transformarem sentimentos complexos em agressividade. Como exemplo, citaram o técnico Abel Ferreira, que chega a xingar jogadores ou fazer gestos obscenos para eles em momentos de “afeto”, no que chamam de “amor duro”.
Segundo Milly, muitos atletas e treinadores foram educados em uma lógica emocional limitada, na qual vulnerabilidade, tristeza ou insegurança são reprimidas, enquanto a violência verbal e física se torna linguagem aceitável. Ou seja, nessa estrutura, a violência é o único sentimento validado e ensinado aos homens desde cedo.
A SOBRECARGA FEMININA DA GESTÃO EMOCIONAL
Por fim, o debate trouxe à tona o custo invisível dessa masculinidade tóxica para as mulheres. Alicia e Milly discutiram como mães, esposas ou companheiras acabam sobrecarregadas com a “gestão emocional” desses homens.
Frequentemente, cabe à elas explicar aos filhos por que o pai agiu de forma inadequada em campo ou tentar orientar atletas que, apesar de milionários, não buscam terapia para lidar com suas frustrações e impulsos.
DEBATE VAI ALÉM DO FUTEBOL
Mais do que uma crítica estética a comemorações polêmicas, o debate levantado pelas jornalistas expôs questões profundas sobre masculinidade, violência simbólica e responsabilidade social no esporte.
Para elas, enquanto o futebol continuar associando autoridade e força à exibição agressiva da virilidade, o ambiente esportivo seguirá reproduzindo comportamentos infantis, violentos e emocionalmente limitados, não apenas prejudicando mulheres, mas os próprios homens inseridos nessa lógica.
VEJA O DEBATE:

