A conquista do tetracampeonato mundial pela Seleção Brasileira, em 1994, ficou marcada pelo brilho de Romário dentro de campo. Mas, longe dos gramados, uma história cercada por drama, violência e personagens improváveis quase mudou o rumo da campanha brasileira nos Estados Unidos. Poucas semanas antes da Copa do Mundo, o sequestro do pai do atacante desencadeou uma mobilização que envolveu familiares, policiais e até um dos traficantes mais poderosos do Rio de Janeiro na época.

Antes de se transformar no principal nome da conquista do tetracampeonato mundial da Seleção Brasileira, Romário viveu dias de angústia que colocaram em dúvida sua participação na Copa do Mundo de 1994. O sequestro de seu pai, Edevair de Souza Faria, ocorrido semanas antes do torneio nos Estados Unidos, mobilizou autoridades, familiares e até integrantes do crime organizado na busca pelo comerciante.

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Naquele período, o Rio de Janeiro enfrentava uma escalada da violência urbana. Os sequestros eram frequentes e o tráfico de drogas ampliava sua influência nas comunidades cariocas. Entre os principais líderes criminosos da época estava Orlando da Conceição, conhecido como Orlando Jogador, apontado como uma das principais lideranças do Comando Vermelho e controlador do Complexo do Alemão.

Apaixonado por futebol e conhecido por patrocinar torneios e eventos esportivos nas áreas sob seu domínio, Orlando teria acompanhado de perto a repercussão do desaparecimento do pai de Romário. O atacante era a principal esperança da Seleção Brasileira para encerrar o jejum de 24 anos sem títulos mundiais. Seu Edevair foi sequestrado ao deixar o bar que administrava na Vila da Penha, Zona Norte do Rio. 

O sequestro



Segundo relatos da época, homens armados e encapuzados o renderam e o colocaram à força dentro de um veículo. Os criminosos exigiram R$ 7 milhões para libertá-lo. A situação abalou profundamente Romário, que atuava pelo Barcelona, da Espanha. O atacante retornou ao Brasil e chegou a declarar que não teria condições emocionais de disputar a Copa do Mundo caso o pai não fosse encontrado. Enquanto a polícia investigava o caso, familiares buscaram ajuda por diferentes caminhos. Na ocasião, o camisa 11 declarou: “ou meu pai não aparece, ou não irei jogar a Copa do Mundo”, disse.


De acordo com relatos divulgados posteriormente, Ronaldo de Souza, irmão do jogador, procurou lideranças criminosas da região do Jacarezinho, comunidade onde a família tinha fortes ligações, na tentativa de acelerar a busca por informações. Nesse contexto, Orlando Jogador teria mobilizado homens ligados à sua organização e utilizado sua rede de contatos para localizar o cativeiro. Embora a localização do refém tenha sido atribuída oficialmente a uma denúncia recebida pela polícia, o episódio alimentou versões sobre a colaboração de traficantes na resolução do caso.

Alívio da família, Romário protagonista e morte de Orlando

Após dias de tensão, Edevair foi resgatado com vida em uma operação policial. O desfecho trouxe alívio à família e permitiu que Romário voltasse sua atenção para a Seleção Brasileira. Meses depois, o atacante escreveria seu nome na história do futebol. Com atuações decisivas e uma parceria memorável com Bebeto, Romário foi protagonista da campanha que levou o Brasil ao tetracampeonato mundial nos Estados Unidos.

Curiosamente, Orlando Jogador não chegou a assistir ao título conquistado pela Seleção Brasileira. Em 13 de julho de 1994, quatro dias antes da final contra a Itália, ele foi morto em uma emboscada atribuída a rivais do tráfico. Segundo relatos da época, o criminoso foi atraído para uma falsa negociação envolvendo um suposto sequestro e acabou executado junto com comparsas.

História que virou documentário

Décadas depois, o ex-atacante relembrou o episódio no documentário “Romário – O Cara”, disponível no Prime Video. Na produção, ele relata os momentos de medo, desespero e impotência vividos durante os dias em que a família buscava informações sobre o paradeiro de Edevair. O episódio permanece como um dos capítulos mais inusitados e pouco conhecidos dos bastidores da Copa de 1994. Uma história em que o drama familiar de Romário se cruzou com a realidade da violência urbana no Rio de Janeiro e que, por pouco, não alterou o destino de uma das maiores conquistas da história do futebol brasileiro.


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